Matarás, mas não roubarás a manteiga
Lembram-se da doméstica presa ano passado por tentar furtar um pote de manteiga no supermercado? Pois é, saiu a condenação pelo juiz Cesar Augusto Andrade, da 23ª Vara Criminal de São Paulo: 4 anos de prisão em regime semi-aberto.
Agora,
lembram-se do jornalista Pimenta Neves que matou a ex-namorada Sandra Gomide a tiros, em 2002, e que saiu livre do Fórum onde foi condenado pelo júri ? Desde o crime, Pimenta Neves passou apenas sete meses preso. Em março de 2001, ele obteve do STF (Supremo Tribunal Federal) autorização para recorrer solto. E agora ele quer serviço completo: anulação da condenação. O recurso será julgado, no próximo dia 13, pelos desembargadores da 10ª Câmara Criminal do TJ (Tribunal de Justiça) de São Paulo.
Ontem, 8 de dezembro foi Dia da Justiça. Que justiça?
Escrito por Glória às 21h33
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Um juiz exemplar
João Baptista Herkenhoff é Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo. Como Professor itinerante, tem visitado cidades, universidades e instituições culturais de todo o país, onde ministra seminários e também profere conferências ou participa de debates. É Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Realizou pós-doutoramentos na Universidade de Wisconsin, EUA, e na Universidade de Rouen, França. Advogado, Promotor de Justiça, Juiz do Trabalho, Juiz de Direito e novamente Advogado, foi um dos fundadores (1976), primeiro presidente e ainda é membro (emérito) da Comissão "Justiça e Paz", da Arquidiocese de Vitória. Foi um dos fundadores (1977) e primeiro presidente da Associação de Docentes da Universidade Federal do Espírito Santo.
É autor de 35 livros, entre eles "Escritos de um jurista marginal", que bem caracteriza um juiz diferente, que ousa seguir a máxima: "Se tiver de optar entre o Direito e a Justiça, escolha a justiça".
Durante os cinco anos de publicação do jornal Recomeço, sempre fomos honrados com recebimento de artigos desse juiz exemplar que soube ver no jornal o intento de levar cidadania e dignidade aos encarcerados, visando a mellhoria das condições carcerárias e, por conseguinte, benefício para a sociedade.
Esses dias recebemos uma pequena grande mensagem de apoio do Prof. João Baptista, que transcrevo como um incentivo à continuação do nosso trabalho:
Glória Reis
Prossiga na sua luta.
O seu trabalho, a sua dedicação é um exemplo de cidadania para todos.
Escrito por Glória às 02h12
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Prêmio Innovare 2006
João Baptista Herkenhoff
Rui Barbosa disse que, num país, o povo pode perder a crença em todas as instituições. Entretanto se, depois de um vendaval de decepções, restar a confiança na Justiça, esse povo recuperará as rédeas de seu destino.
Nos últimos tempos de Brasil fatos de grande repercussão têm comprometido a imagem do Poder Judiciário. Não importa se mil juízes, perdidos em comarcas distantes, cumprem sua vocação com dignidade. Basta que alguns magistrados profanem a toga para que a Justiça seja desmoralizada.
Visando justamente a destacar as coisas boas da Justiça, a Fundação Getúlio Vargas, com apoio do Ministério da Justiça, Associação dos Magistrados Brasileiros e outras instituições, criou o Prêmio Innovare que está tendo, neste ano, sua terceira edição.
O Prêmio Innovare, como é expresso na sua justificativa, foi criado para “identificar, premiar, sistematizar e disseminar práticas pioneiras e bem sucedidas” na Justiça (Juiz individual, Juizado Especial, Tribunal), no Ministério Público e na Defensoria Pública.
Em cada uma dessas categorias duas práticas são destacadas: uma que recebe um prêmio em dinheiro, outra que recebe um prêmio de honra (menção honrosa).
No ano passado, uma Juíza de Direito de meu Estado (ES) recebeu o prêmio de honra. Trata-se de Gladys Henriques Pinheiro com a prática denominada “Sistema integrado de atendimento à criança”. A experiência de Gladys desenvolveu-se no município da Serra, integrante da Grande Vitória.
Neste ano novamente um capixaba, juiz aposentado, recebe láurea idêntica à de Gladys.
O juiz aposentado apresentou uma prática que ele desenvolveu, em diversas comarcas do Espírito Santo, a partir de 1967. Sua experiência consistiu na utilização, em larga escala, de medidas que substituíssem o encarceramento de pessoas e foi denominada “Crime, tratamento sem prisão”. Depois de realizar a experiência, esse juiz, com ajuda de dezesseis alunos seus da UFES, fez uma pesquisa para verificar o que havia acontecido com as pessoas que foram beneficiadas pelas medidas liberalizantes. Constatou-se que o índice de reincidência nesse grupo foi de dez por cento, em números redondos, em contraste com o índice de reincidência de sessenta e sete por cento, nas prisões brasileiras. A experiência relatada mostrou que a questão não era somente soltar o preso, ou deixar de prender alguém. Era preciso que o juiz acompanhasse a vida desse alguém, estabelecendo com esse alguém um liame existencial, um como que “pacto de honra”.
Na época em que levou a cabo sua experiência, o juiz não foi compreendido no seu propósito.
Como é reconfortante que, quatro décadas depois, o juiz, ainda vivo, possa ouvir da Comissão do Prêmio Innovare que aquela experiência dos idos de 60 ainda é válida e atual no Brasil de 2006 e que, por esse motivo, será disseminada por todo o país.
Posso assegurar, sem qualquer sombra de dúvida, que o juiz aposentado está muito feliz porque esse juiz sou eu.
João Baptista Herkenhoff
Escrito por Glória às 01h55
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A banalização da injustiça
"Delegado, promotor e juiz mantiveram-na presa, ignorando ser a jovem presumidamente inocente"
Abominável a notícia da jovem mãe presa acusada de dar cocaína para a filha. Dentro da prisão, ela foi espancada pelas outras presas, teve a mandíbula quebrada e lesões na cabeça e no corpo. Como em alguns casos a justiça é rápida! Depois de 15 dias da morte da menina, Daniele Toledo, de 21 anos, foi presa. Não esperaram nem os laudos conclusivos sobre as amostras coletadas.
Também me horrorizou a atitude do médico que estava com a menina quando ela morreu e sabia que eram os remédios que estavam fazendo mal à paciente. Quando indagado sobre a prisão injusta da mãe, ele respondeu:" Isso não é problema meu, é da polícia."
Bando de gente omissa, irresponsável, criminosa Quem julgará seus crimes?
O advogado de São Paulo, Mário Henrique Ditticio, manifestou-se sobre essa infâmia:
"Mais uma vez foi explosivo o resultado da combinação entre uma sociedade apavorada que ignora os mais básicos princípios democráticos, um sistema de persecução penal falido e uma imprensa preocupada sobretudo em faturar com a tragédia alheia.
A vítima, desta vez, foi uma jovem de 21 anos que passou o ano inteiro cuidando da filha em um hospital público, onde foi estuprada e injustamente acusada de ter envenenado o bebê.
Delegado, promotor e juiz mantiveram-na presa, ignorando ser a jovem presumidamente inocente. Carcereiros deixaram-na em uma cela com outras 20 detentas -quando era óbvio, em razão do alarde feito pela imprensa, que seria torturada.
Estado e imprensa praticamente destruíram a vida de mais uma pessoa inocente."
Conclusão
E o que mais me choca nessas notícias rotineiras na justiça brasileira é o silêncio da sociedade, o "silêncio dos bons", como bem denominou Martin Lutter King. É a ausência de cobrança de uma instituição pública, que deveria ser a mais cobrada, pois, o que se pode esperar de um país sem justiça? Enquanto esses horrores acontecem, os doutores da lei discutem seus salários. Em sua "torre de cristal" já nem se lembram de que são funcionários públicos a serviço do povo. Tudo isso me faz lembrar Maria Antonieta, indiferente aos anseios do povo por justiça, no fim da monarquia francesa. Certamente, a rainha se achava protegida no Palácio de Versalhes e jamais contava de morrer guilhotinada pelo povo que ela ignorava.
Escrito por Glória às 00h48
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A lentidão do Judiciário
Rogério Gentile
Embora contribuam um pouco para o fôlego dos magistrados, as medidas aprovadas pelo Congresso Nacional -súmula vinculante e repercussão geral- são insuficientes para resolver a morosidade desmoralizante e perversa da Justiça brasileira. A situação é similar à de um atoleiro, pior do que o próprio Judiciário deixa transparecer. Faltam juízes, verbas e espaço; sobram possibilidades de recursos (há mais de 40), erros e impunidades. Em São Paulo, juízes têm de guardar processos em banheiros. No Pará, um sujeito ficou dez anos preso esperando pelo julgamento. Pelo país afora, culpados se livram de punição por prescrição da ação, e empresas recorrem de causas perdidas apenas porque a taxa de juros do mercado é superior à da correção do valor da indenização. O problema no Judiciário é bem mais fundo do que o alcance das medidas aprovadas. Até porque a súmula -mecanismo pelo qual as instâncias inferiores têm de julgar segundo decisões consagradas no STF para casos análogos- tem um efeito colateral importante. Advogados vão continuar a recorrer, com a diferença de que, em vez de questionar o entendimento de um juiz sobre o mérito de uma causa, passarão a alegar simplesmente que ela não se enquadra na súmula. No caso do "critério de repercussão geral"-pelo qual o STF poderá recusar recursos para ações sem relevância pública-, a medida reduzirá a carga do Supremo, mas não terá influência sobre a das outras instâncias. E um processo leva seis anos só para chegar ao STF. Para agilizar a Justiça, é necessário disponibilizar mais verbas, reformar o Poder, melhorar a formação de juízes e enfrentar o lobby de advogados -muitos ganham com a complexidade do sistema. É preciso, sobretudo, reduzir o número de instâncias e limitar os recursos protelatórios, o que é possível fazer sem ferir o amplo direito à defesa. Do contrário, além de cega, a Justiça continuará manca.
Fonte: Folha de São Paulo - 7/12/06
Comentário
Discordo do autor quanto a algumas alegações, uma delas sobre número de processos. O judiciário adora se atolar de processos, é o seu álibi para as suas mazelas decorrentes da velha cultura brasileira de mau funcionamento das instituições públicas.
O meu processo, por exemplo, só pode ser resultante de dois fatores: primeiro, o juiz estar com tempo sobrando para me processar e, segundo, ele não avaliar a sobrecarga para o sistema do qual ele é integrante.
Categoria: ARTIGOS
Escrito por Glória às 23h27
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O filme Turistas e a hipocrisia brasileira
Tenho recebido e-mails de uma campanha para boicotar o filme americano Turistas que está para estrear no Brasil no inicio de 2007. A mensagem informa que "a EMBRATUR já está tão preocupada com a péssima repercussão do filme lá fora que, temendo uma queda brusca na receita do país vinda do turismo internacional, já está preparando campanhas intensas para serem veiculadas lá fora e tentar minimizar os estragos".
Trago aqui a minha visão e reflexão não sobre o filme, porque ainda não vi, mas sobre a patética reação da EMBRATUR e dos próprios brasileiros.
Lá vai a minha opinião:
Discordo e explico
Brasileiro tem uma característica muito hipócrita. Ninguém mais do que ele próprio denigre a imagem do Brasil, inclusive em seus filmes.
Adoro cinema e todos os dias, à noite, corro os canais da Sky. Sempre inicio (aliás, iniciava, ultimamente, tenho desistido) pelo Canal 66, Canal Brasil, de filmes nacionais. E só deparo com filmes horrorosos, não há um que não venha recheado de palavão, cenas chulas de sexo e violência gratuita. Olho aquilo durante algum tempo e me pergunto: por quê? para quê?
Os poucos filmes que saem desse padrão cometem outros absurdos como, por exemplo, o "Triste fim de Policarpo Quaresma" do Lima Barreto. Como adoro o livro, ao vê-lo iniciar no canal 66, fiquei toda animada, "ah, que bom, ver este filme", pensei. Passei foi mais raiva de ver o conteúdo do livro que adoro todo deturpado, mudando, por exemplo, a relação de amizade entre Policarpo Quaresma e a sua afilhada Olga, com um término patético de que eles teriam uma paixão mútua. Além da burrice e falta de sensiblidade em imaginar tal coisa, vem o desrespeito com o autor Lima Barreto que, em nenhum momento do livro, insinuou tal bobagem. A paixão de Policarpo era ver brotar em seu país a cidadania, a consciência coletiva, e sua afilhada Olga, por sua vez, o admirava como um grande homem ético e humano o que, inclusive, contrastava com o seu marido burguesão e tacanho. Tem uma outra cena patética no filme em que Policarpo tem uma relação sexual com a terra. Isso mesmo, como em tudo os diretores têm de colocar sexo e o livro não trata disso, eles criaram essa anomalia do Policarpo deitado pro chão, fazendo movimentos estocando a terra, deturpando o amor que ele sentia pelo seu país.
Ah, e tem mais, se quiser ver filme pornográfico à noite, é só ir lá no Canal Brasil. É o que não falta. Fico pensando nos milhões que se tira de um pais com tanta pobreza para produzir tanto lixo.
Aí, quando um americano faz UM filme que consideram denegrir a nossa imagem lá fora, a EMBRATUR e os brasileiros saem da letargia e começam a gritar. Ah, me poupem, que já não aguento mais tanta hipocrisia neste país. Deduzo desse episódio que enquanto o lixo roda aqui dentro, passando péssimos temas para o nosso povo, aí pode, tudo bem! Mas quando alguém de fora mostra o nosso cinismo, a nossa corrupção, a nossa violência, a falência das nossas instituições públicas, aí o "silêncio dos bons", como dizia Martin Luther King, resolve mostrar a voz e sair metralhando sem refletir, sem olhar para dentro do seu país.
Tem um trecho da mensagem contra o filme que diz: "Só pra se ter uma idéia, o trailer começa com a frase: 'Num país onde vale tudo, tudo pode acontecer!!!'.
Uai, e não é verdade?
Escrito por Glória às 14h14
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Manifesto contra o arbítrio
Recebi da profa. Maria Helena Zamora, da PUC-Rio, um manifesto de repúdio contra o processo em que o juiz de Leopoldina-MG acusa-me de crime de difamação por ter escrito um editorial no jornal Recomeço, no qual exponho e denuncio as condições desumanas da cadeia de Leopoldina. Mais uma vez, o judiciário investe contra o direito de livre-expressão e, mais grave, contra o dever dos cidadãos de cobrar o cumprimento da lei pelas próprias autoridades e nas instituições publicas. Se essas não respeitam a lei, seremos sugados por uma cultura autoritária que põe em risco nosso Estado de Direito.
Agradeço à profa. Maria Helena Zamora e também manifesto minha admiração por sua postura de se indignar diante das injustiças e se posicionar publicamente, colocando seu conhecimento a serviço de um Brasil realmente democrático e comprometido com a justiça social.
Abaixo o manifesto da profa. Maria Helena Zamora.
Escrito por Glória às 00h32
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A Glória e o Recomeço
Profa. Dra. Maria Helena Zamora*
Durante cinco anos Glória Reis tem publicado o jornal Recomeço impresso e em site na internet. Foram 128 edições, com cerca de 900 matérias voltadas para a defesa dos direitos humanos, em especial sobre a questão carcerária, contando com a produção dos presos, que podem falar um pouco de si. Nunca nos vimos, mas a pouco mais de um ano Glória faz parte da minha vida, pois sinto que minhas preocupações ocupam outro alguém. A pouco mais de um ano acompanho a luta desta mulher corajosa e sempre me sinto afetada por sua sinceridade, coerência e honestidade.
Agora venho a saber que, em função do editorial da edição 117, o juiz da comarca de Leopoldina a acusa de difamação por ter escrito: “Não é aceitável a conivência de magistrados, fiscais da lei, advogados, enfim, operadores do Direito, com tamanha barbárie. O regime atual é um desrespeito à Constituição, à lei, aos cidadãos deste país, enfim, à nossa inteligência”.
Lembrei dos meus mestres e referências no estudo e no trabalho. São juristas, professores doutores e famosos no Brasil e no mundo por seu conhecimento e erudição. Loïc Wacquant diz que “nas últimas décadas as elites políticas brasileiras têm usado o estado penal - polícia, tribunais e sistema judiciário - como o único instrumento não só de controle da criminalidade como de distribuição de renda e fim da pobreza urbana”. E mais adiante: “Os tribunais agem sabidamente com preconceito de classe e raça”. Nilo Batista, fazendo severas críticas à atuação da justiça e às condições do sistema penitenciário brasileiro, também descreve a política criminal de drogas no Brasil como uma “política criminal com derramamento de sangue”. Já Salo de Carvalho critica historicamente “a legislação penal de drogas com seus dispositivos vagos e indeterminados e o uso abusivo de normas penais em branco”, que “acabaram por legitimar sistemas de total violação das garantias individuais”. O grande Roberto Lyra, afirmou que [em teoria] "a prisão visa a prevenir e a reprimir crimes. Ora, a prisão é causa de crimes". E também que “o Direito penal, já desnecessário, passará a constituir modalidade de justiça social, no futuro. Nem o nome será aproveitado. Quando a sociedade distribuir, na exata medida das necessidades, as crescentes conquistas da ciência, da arte, da técnica, estará esgotada a missão do Direito penal. A lei, na genuína sociedade democrática (sem classes ou castas) só cogitará do essencial e fundamental para todos”. Espero também que esse Direito punitivo não venha a durar mais do que já durou...
Lembrei então de Evandro Lins e Silva, que critica, como também o fez Gloria, a barbárie do sistema penal, dizendo, por exemplo, que “a prisão no Brasil é uma infâmia muito grande. Pela superpopulação, pela promiscuidade, pela desumanidade” e taxativamente se posicionando, diz: “Sou absolutamente contra a prisão como método penal”. Ou seja, para todos eles, o sistema penal, faz parte dessa enorme máquina de excluir gente, o atual “globo da morte”, como diz Vera Malaguti Batista, essa, uma historiadora renomada.
Voltei-me então aos ensinamentos de Michel Foucault, Cecília Coimbra, Marildo Menegat, Raul Zaffaronni, Jock Young, Zigmunt Bauman, Ignácio Cano, Louk Hulsman. Lembrei dos muitos dos relatórios da Anistia Internacional, da Human Rights, do Grupo Tortura Nunca Mais, do recente relatório da ONU, feitos por companheiros corajosos daqui e do exterior, que acusam claramente uma certa Justiça brasileira, omissa até para seguir suas próprias leis e seletiva para prender negros e pobres; uma Justiça de simulacro, conivente com a tortura dos presos e com a crueldade.
Enfim, são tantos, tantos que disseram tanto, tanto mais do que Gloria disse!!!
Haverá lugar para todos eles na cadeia de Leopoldina, Senhor Juiz?
Porque antes que pareça que eu me escondo atrás dos doutores, quero declarar que concordo completamente com as palavras de Glória Reis, no editorial 117. Faço das palavras dela as minhas palavras, como a luta dela é a minha luta.
Fale mais, companheira Glória, fale sempre!!! Recomece, mostrando o caminho, apesar da barbárie.
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*Maria Helena Zamora é professora doutora da PUC-Rio - Departamento de Psicologia
Escrito por Glória às 00h24
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Carla morreu. Mas está salva a propriedade
" Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade."
(A morte do leiteiro - C.Drummond de Andrade)
Drummond disse tudo em seu poema: não respeitamos a vida e veneramos a propriedade, e polícia não bota a mão em "filho de meu pai".
O jornal mineiro noticia: Morre grávida atingida por tiro na cabeça em BH. Não com o mesmo destaque da notícia ao lado informando que a atriz da Globo, Juliana Paes, acaba de ganhar o troféu de “bumbum mais bonito do Brasil”. Afinal, espaço em jornal é para as notícias mais importantes.
Carla tinha 20 anos e estava grávida. Também morreu seu bebê e ficará órfã sua menina de três anos. Carla varria a frente da casa num bairro pobre onde "a polícia chega atirando", como disseram os moradores.
A jovem foi alvejada por policiais militares que perseguiam "criminosos" no interior da vila.
Coloco aqui a foto de Carla para que seja lembrada por mais uns dias. Por favor, leitor, ao menos mais uns dias. Tire os olhos do bumbum mais bonito do Brasil e olhe para Carla, a morta no tiroteio. É mais uma mártir de um país onde a propriedade vale mais que a vida, e algumas vidas valem mais que outras (isso vai depender se tem conta bancária, e do tamanho da conta) e a polícia tem autorização para matar, e os cidadãos deste país não se indignam com a morte de gente pobre. O que importa é atirar nos "criminosos" que poderão, eventualmente, colocar em risco a propriedade. Afinal, quem mandou Carla ficar ali, cuidando da casa, na frente das balas? Estamos cumprindo a maior missão neste país: salvar a propriedade.
Quem matou Carla foi o governador, que escolhe seu secretário de segurança, que escolhe seu comandante, que dá ordem ao policial: "ATIREM, SALVEM A PROPRIEDADE".
Escrito por Glória às 02h04
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CARTA ABERTA À EXMA SENHORA JUÍZA PRESIDENTE DO STF
 Exma Sra Juíza Ellen Gracie Northfleet
Presidente do Supremo Tribunal Federal
Consternado e entristecido ouvi ontem, em cadeia Nacional, a melancólica e triste entrevista de Vª Excelência tentando justificar direitos salariais e jetons para si e seus pares. Tenha certeza Sra Gracie, permita-me assim chamá-la, eu e milhões de Brasileiros fomos dormir, ontem, mais tristes, mais desesperançados e muito, muito mais melancólicos com os destinos de nossa pobre e explorada Nação. Confesso de coração aberto e com alma de cidadão, que fiquei feliz e Emocionado quando a Sra foi escolhida para presidir a mais alta corte da Justiça Brasileira. Em boa e alvissareira hora, substituindo seu antecessor de triste memória e questionável desempenho ético. Li, nas páginas de uma revista semanal, o belíssimo artigo de sua conterrânea Gaúcha, a admirável e amada LYA LUFT, discorrendo sobre a escolha pelo voto para Governadora de seus estados, três MULHERES. Em seu lúcido artigo, transparecia a esperança depositada nestas mulheres, mães, esposas - reserva moral da família - e talvez a redenção da Pátria. Decorridos apenas alguns dias, deparo-me com a sua entrevista no citado tele-jornal. Charmosa nos seus anos maduros, simpática e com postura de autoridade, como sempre elegante, com o domínio completo de suas atribuições. Mas, Sra. Presidente, que desilusão, que desgosto, que inversão de valores a Senhora nos passou com a defesa intransigente sobre o aumento de seus próprios salários e de uma novíssima modalidade de reforçar seus já generosos contra-cheques - JETONS, JETONS - pagamentos específicos para Vªs Excelências, por reuniões em hora de expediente e com finalidades não devidamente esclarecidas. E mais, retroativos a JULHO de 2005, com os devidos ressarcimentos. E ainda, Sra Presidente, totalmente isentos de Imposto de Renda, esta coisa comezinha e degenerada que só a ralé deve descontar religiosa e mensalmente para que Vªs Excelências tenham seu contra-cheques, mordomias mil e JETONS inexplicáveis garantidos. Penso que Juízes e assemelhados devam ser bem remunerados. Penso que um magistrado no sagrado dever de suas atribuições, não pode e não deve ficar preocupado com suas contas, suas faturas, e a condução administrativa de seus familiares e as despesas do dia-a-dia. Suas funções e suas atribuições são nobres, belas e importantes demais, para que Vªs Senhorias se desviem, durante seu "expediente" para tratar de assuntos tão corriqueiros. Mas entre salários - sim, salários - porque Vªs Senhorias são funcionários, e, portanto, são assalariados, assim como eu e milhões de brasileiros, e salários milionários, vai uma grande diferença.
Escrito por Glória às 02h02
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Continuação da carta à ministra Ellen Gracie Northfleet
No momento em que se discute se o salário mínimo aumentará R$ 17,00 ou R$ 25,00, o Judiciário Brasileiro, o mais bem remunerado do Planeta, pleiteia descarada, abusiva e acintosamente um novo e fabuloso aumento. O legado iluminista de MONTESQUIEU, na sua mais bela obra "O Espírito das Leis-1748", modificou para sempre a História dos povos e das Nações modernas e socialmente justas, prevendo a separação dos poderes, como forma mais adequada de Governo. No entanto, esses conceitos, que para outras Nações privilegiadas foi uma benção e uma maneira eficaz e correta de governar os povos, para o nosso infeliz Brasil, é uma praga descontrolada. Ninguém controla nada, ninguém processa ninguém, e todos se locupletam. A Bielo-Rússia é ex-colônia da falecida URSS. Continua um estado totalitário, ineficaz e corrupto. Não tem grandes indústrias, seu comércio é pífio e suas riquezas naturais, modestas. Nem de longe comparar com o fantástico e imenso território Brasileiro, com suas incríveis reservas naturais. Nossa indústria é pujante e moderna, nosso povo é ordeiro e laborioso. Assim mesmo Exma Sra Juíza, aquele pequeno e infeliz País da Europa Oriental teve seu IDH superior ao do Brasil. Por quê? Por que será que caminhamos céleres e firmes para o ralo da História? Não lhe ocorre nada? O que pensam Vªs Excelências, como estipulam seus estipêndios? De onde acham que saem os recursos que sustentam sua paralisada máquina? Afinal, para que tanta ganância? Porque um juiz da triste Nação Brasileira necessita ser milionário, quando a imensa maioria do povo humilde é miserável e passa fome, não tem saúde, não tem educação, não tem assistência JURÍDICA e não tem esperança? Acaso tiveram em sua bela e generosa existência Vª Senhoria e seus pares a oportunidade de privar com o simples cidadão? O empregado da Indústria, o trabalhador rural, o peão de obra, a doméstica que levanta às 05:00hs para chegar a tempo no seu modesto emprego e receber um salário vil e famigerado? Tenho certeza que não. Vossas Senhorias, todas, não sabem mais dos valores e das misérias da existência humana. A alegria e tragédia de um povo humilde, trabalhador, honrado, digno. Vªs Senhorias todos se perderam nos descaminhos viciados do imenso e fantástico poder que desfrutam e usam até o limite da tolerância da sociedade. Que espécie de Nação pensam estar legando para a posteridade? O que Vªs Senhorias pensam do futuro de nossos filhos e netos? Até onde aguentará a paciência generosa do povo Brasileiro? Até quando?
Exma Sra Presidente Ellen Gracie Northfleet, sou um simples cidadão, um pai de família, um funcionário público aposentado. Ainda assim trabalho para reforçar minha renda. Porque preciso, porque sei, porque gosto. Convivo diariamente com Homens, Homens com HHH maiúsculo. Peões de obra, assalariados, miseráveis, gente simples, modesta, inculta, pobre e desdentada - com suas roupas sujas, remendadas, com o cheiro inerente aos homens da labuta, o cheiro do suor, do trabalho. O cheiro inconfundível do progresso, da honra, da dignidade humana. O cheiro que certamente para as finas narinas de Vªs Senhorias seria intragável, para mim, que os conheço e respeito, é o cheiro da esperança de um futuro melhor, de uma nação mais próspera, de uma sociedade mais justa e igualitária. Solicito respeitosamente a Vª Excelência, ou melhor, imploro à Sra Presidente, como Brasileiro e cidadão, imploro humildemente do meu modesto e simples lugar: não destrua mais uma vez a esperança de milhões de compatriotas, não compactue com a ganância sem fim de seus pares, não sangrem mais a nação extenuada e prostrada até a última gota. Respeitosamente Gerson Marquardt - Cidadão, pai, avô. Brasileiro
Escrito por Glória às 01h55
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