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BLOG DO RECOMEÇO
 


 
Dia 12/4, o Recomeço trouxe para seus leitores a crônica "Cartas da prisão" do escritor  Affonso Romano de Sant'Anna. Ontem tivemos a grata surpresa de vê-la publicada no PRAVDA, com chamada para o nosso site.


Escrito por Glória às 14h49
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Ditado do tempo do Império, mas atualíssimo
 
"Quem rouba um tostão é ladrão, quem rouba um milhão é barão"
 
Este provérbio frisa o rigor com que a justiça pune os pequenos furtos e a complacência com que trata os que conquistam grandes fortunas, ainda que por meios tortuosos e ilícitos . Mostra que há uma justiça de classe, que aplica dois pesos e duas medidas. É  a base do conto de Machado de Assis, "Suje-se Gordo!


Escrito por Glória às 02h06
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                      Escritor se corresponde com um detento
 
Temos a honra de ter o escritor Affonso Romano de Sant' Anna como leitor e incentivador do jornal Recomeço. Ele enviou-me uma crônica na qual relata sobre sua correspondência com um preso de uma penitenciária de São Paulo. Há um trecho em que o escritor diz que as palavras dos presos  "em muitos casos,  são mais instrutivas que textos de alguns intelectuais e ministros". Segue a crônica e o raro exemplo de um intelectual brasileiro que não foi contaminado pelo preconceito (e desinformação) contra as vítimas do nosso injusto e cruel sistema carcerário.
 


Escrito por Glória às 02h18
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CARTAS DA PRISÃO   
 
         AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA
 
Um preso de uma das penitenciárias de São Paulo, o qual não posso identificar aqui para que ele não sofra represálias, tem se correspondido comigo há quase um ano. Contou-me as razões de estar preso (envolvimento com drogas, mas nenhuma violência) e revelou-se uma pessoa apaixonda pela leitura, pedindo-me vários livros, que mandei.  Suas cartas são bem escritas. Na verdade é um escritor que intuitivamente está abrindo seu caminho.
A penitenciária onde está é daquelas que foram devastadas pela fúria das recentes rebeliões comandadas pelo “crime organizado”. Ele já passou por várias dessas rebeliões e sobre uma delas comentou:  “quase morri  de pavor diante de tamanha carnificina e destruição.  A penitenciária foi totalmente destruída, mas o que mais me chocou e me chamou  a atenção foi o incêndio  perpetrado contra a biblioteca, por não terem acesso à biblioteca, revoltados,os presos acabaram com ela. Um  crime mais do que hediondo, a queima de livros deveria dar prisão perpétua. Todos os livros que eu tinha na cela,  inclusive os que você me presenteou, foram furtados por um agente penitenciário folgado e ladrão, que aproveitando-se da balbúrdia armada dentro do presídio, achou que tinha o direito de  tirar tudo o que havia nas celas”. E segue relatando e comentando  o que ele mesmo chama de “universo dantesco” em que vive.
Numa outra carta, voltando ao tema da leitura, que o fascina, diz: “Quem me dera poder adquirir todos os livros que sonho ler, infelizmente, no Brasil não há  nenhum incentivo à leitura e acho que qualquer esforço nesse sentido seria vão, já que somente uma minoria aprecia a literatura e quando alguém ama os livros, como eu, não tem como comprá-los porque é pobre.Acho que tudo faz parte de um grande esquema mesmo, justamente para manter o povo sob rédeas”.
Felizmente ele está equivocado em parte dessas observações. Hoje em dia há dezenas e dezenas de programas de promoção de leitura no pais, inclusive em prisões. Cito, por exemplo, duas pessoas amigas. Lá em Brasília, Maria Conceição Salles há muito faz um programa desses na penitenciária da Papuda. E lá no sul da Bahia, Eleusa Câmara conseguiu até que um dos presos  editasse um romance, o que virou até notícia no “Jornal Nacional”.
As pessoas e organizações não  estão mais esperando que o governo tome iniciativas.Se tomar, bem, caso contrário, vão realizando  seu projetos assim mesmo. Ha pessoas abrindo bibliotecas em açougues, borracharias em qualquer birosca de favela. Pos aí afora, há vários programas de promoção de leitura rolando. Só na semana passada estive em Blumenau e Joinville onde presenciei notáveis conquistas neste sentido realizadas pelas professoras Paatricia Constancio e Tayza Rauen Moraes. Outro dia falei aqui do que ocorre em vários municípios cearences com os “agentes de leitura” freqüentam regularmente comunidades carentes.
Há algum tempo comecei a coligir entrevistas e depoimentos de marginais sobre a importância da leitura e da cultura. Suas palavras, em muitos casos,  são mais instrutivas que textos de alguns intelectuais e ministros. Uma das constantes na declaração de marginais é a afirmativa- “se eu tivesse tido estudo, não  estaria nesta situação”. Desconcertante é constatar que são os “ excluídos” os que mais clamam por uma chance através do estudo e da cultura. Por estarem aprisionados sabem que o estímulo do imaginário através da leitura é uma forma não só de auto-conhecimento, mas de liberdade possível.


Escrito por Glória às 02h16
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  Nota sobre o quadro das mãos algemadas

O quadro na postagem abaixo, da edição 129 do Recomeço,  é citado no Livro “As misérias do Processo Penal” do juiz italiano Francesco Carnelutti (é a capa do livro). O livro é maravilhoso, um clássico da literatura jurídica mundial e trata, inclusive,  das injustiças que se comete em nome da lei e, principalmente, enfoca a necessidade de se julgar com compaixão, vendo em cada acusado, como diz o autor: “um homem como eu”.
Francesco Carnelutti conta no livro o quanto se impressionou com o quadro que recebeu do pintor italiano Mentessi, no qual ele mostra as mãos de um encarcerado presas nas algemas: uma das mãos, a esquerda, tombada para baixo, em desalento; a outra, sobreposta, com a palma para o alto, implorando a compaixão.  O autor diz que há toda a psicologia do encarcerado neste pequeno quadro. 
 


Escrito por Glória às 02h40
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Recomeço, o jornal dos detentos

 
"Haverá juízo sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o julgamento."
(Epístola de São Tiago, cap. 2, vers. 13)
  
Edição 129 do jornal Recomeço  – Abril de 2007
 
TEXTOS DOS DETENTOS
 
Dênis Fernandes
 
Carta de amor
 
Para Derdilane, meu amor
É com imenso prazer que eu pego esta caneta para lhe dizer o quanto sou grato por ter na minha vida uma pessoa como você: inteligente, meiga, simples, adorável e de bom caráter. Você nem imagina o quanto você me faz feliz aqui neste lugar, o qual não se encontra nada comparado a você. Eu sonho a todo momento em sair e ter uma vida digna ao teu lado. Você fez renascer uma nova esperança no meu coração de ser feliz, tendo uma mulher tão especial como você.
Meu anjo, espero que você confie nas minhas palavras que não são da boca pra fora, mas de um sentimento verdadeiro e de caráter humano.
Você é a flor mais linda de todos os jardins, o seu perfume me encanta e me seduz a todo momento.
Esta carta direcionado ao jornal Recomeço, é uma prova de minha sinceridade e do meu amor. Peço a Deus que os anjos estejam o tempo todo ao teu redor, te guardando e te abençoando.
Um super beijo no seu coração e obrigado por existir.
Do seu admirador
Dênis
 
***
Para os meus pais - E para meus pais, Altamiro e Maria de Fátima, me aguardem pois brevemente estarei juntinho de vocês. Vocês são a razão do meu viver. Um beijo carinhoso a vocês meus pais que tanto amo.
Seu filho Denis (AMO VOCÊS).
 
***              
Ao jornal Recomeço - Parabéns pelo retorno deste importante jornal, que nos proporciona uma grande vantagem. Obrigado.
 


Escrito por Glória às 18h46
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Daniel Oliveira
 
Em busca de uma alma gêmea
 
Escreva para mim
 
Em primeiro lugar, a todos leitores a minha admiração.
O meu nome é LOBO SOLITÁRIO, tenho 23 anos de idade, sou um detento da Cadeia Publica de Leopoldina-MG.
Venho por meio desta humilde carta tentar encontrar a minha alma gêmea.
Procuro uma pessoa que me aceite do jeito que sou, e nas condições em que me encontro. Sou homem de boa índole e capaz de fazer uma pessoa muito feliz. Vou contar um pouco de minha vida. Fui preso por crime de homicídio, mas foi por legitima defesa. Afirmo que este tempo todo que estou preso, agora sou uma nova pessoa, pronto para viver na sociedade.
Se você acredita na minha regeneração, escreva para mim sem compromisso, e vamos tentar nos conhecer melhor, tenho certeza que você vai gostar de mim.
Escreva para o endereço do jornal Recomeço, estou aguardando sua resposta.
 
Meu apelido fantasia Lobo solitário


Escrito por Glória às 18h16
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André José dos Reis
 
Aos jovens em liberdade
 
Nesta vida nós não somos ninguém.
Sou um jovem de 26 anos e resolvi explicar para esse jovens que estão em liberdade para que possam dar mais valor a suas vidas. Porque esse mundo aí fora nós vivemos de sorte no mundo de azar. Esta vida ai fora é só alegria e diversão, mas temos que tirar um tempo para pensar se o que estamos seguindo é certo ou errado. Essa foi a forma que achei para me expressar a todos os jovens. Peguem com Deus que a vitória é certa.


Escrito por Glória às 18h13
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Samuel Teodoro
 
Poesia
 
Às vezes eu sofro tanto que até mesmo eu esqueço de dizer: EU SOU FELIZ.
Mas neste poço de lagrimas, surge um sorriso que é maior
e capaz de me fazer superar todas as minhas dificuldades.
O choro e o sorriso moram lado a lado.
Por isso eu quero viver sempre sorrido ou às vezes chorando.
Mais além de tudo, eu quero é viver feliz ao teu lado.
Pois o verdadeiro homem é o que chora por um grande amor.
Não aquele que chora com medo de ser AMADO
Por isso eu faço da noite uma criança, da estrela há esperança.
Cubro de pluma o meu peito que é como um leito só pra te repousar.
Mas quando eu te toco eu me arrepio. Num beijo de lírio parece que vou flutuar.
Mas são quando o seu braço me aperta a sua voz me desperta,
para que eu possa te amar.
 
Ao jornal Recomeço
 
Em primeiro lugar quero parabenizar por essa ação que eleva a criatividade de nós detentos a toda sociedade e um pouco da estória de cada um. Meu nome é Samuel Teodoro. Tenho 32 anos, sou um detento da cadeia publica de Leopoldina-MG. Vou contar um pouco da minha estória de vida neste lugar. Ao contrário do que muitas pessoas pensam a nosso respeito, a realidade é bem diferente, pelo contrário, somos pessoas em busca de uma nova oportunidade de vida social. Muitos não acreditam em presos regenerados, mas eu posso afirmar que a maioria dos presos sonha com liberdade e de reintegrar à sociedade. Eu sou evangélico e temos vários detentos evangélicos também, procuramos pregar o amor, a humildade e a Paz. Graças a Deus temos ótimos retornos.
Você que está lendo este importante jornal, algum dia já visitou uma unidade prisional? Se você nunca visitou, eu lhe faço um convite: venha nos conhecer de perto e ver com os seus próprios olhos a vida que leva um detento.
Tenho certeza que você vai mudar a sua concepção e vai nos ver de uma maneira diferente do que você pensava.
Muitos querem aumentar o tempo de condenação para manter mais tempo o preso na cadeia. Mas são poucos os que pensam que o detento precisa de trabalho, de estudar, vocês nem imaginam a quantidade de pessoas encarceradas que não tem escolaridade. Não é porque somos burros, pelo contrário somos inteligentes só nos falta oportunidade de estudar e ter profissão. Se a maioria da sociedade pensar e criar uma lei que obriga o estado de profissionalizar, educar o detento o índice de criminalidade seria bem menor. Porque aí o detento teriam condições de cuidar de sua família e ter uma vida mais digna diante da sociedade. Mas como existe o velho ditado: “uma andorinha só não faz verão”. Bom, peço desculpas por meu desabafo, mas eu crio que Deus mudará o rumo disto e nos dará uma vida mais justa de se viver.
Aos leitores o meu carinho e a minha admiração a todos.
 


Escrito por Glória às 18h12
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APELO DOS DETENTOS
 
 Valmir Santiago
 
Fui preso no dia 20/10/04 por tráfico de drogas no artigo 12, fui condenado a 3 anos e 3 meses de reclusão. Eu venço a condicional com 2 anos e 2 meses, venci a condicional no dia 20/12/2006, tenho pago 2 anos e cinco meses mais 2 meses de remissão, pois comecei o trabalho interno de faxina no dia 01 de outubro de 2006. Tenho total pago 2 anos e 7 meses contando junto com a remissão. Meu pedido de condicional já foi feito, e ainda estou aqui. Por favor olhem isto para mim.
 
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Jefferson Nascimento
 
Dia 15 faz 3 anos que estou privado da minha liberdade, sem julgamento.
Irmã Beth, estou doente, preciso ir ao hospital. Obrigado por tudo que faz pelo próximo, que lhe venha em dobro. 
 


Escrito por Glória às 18h08
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