Greve no serviço público: direito de abuso
Escrito por Glória às 17h19
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São raras as críticas à truculência da polícia na nossa mídia, daí que a artigo abaixo vale uma transcrição
Virada cultural?
por Anna Carolina Botelho Takeda
São Paulo, show dos Racionais na Praça da Sé, expectativa de um puta show acontecer. Pois é, aconteceu mesmo, mas não como o esperado porque a polícia, ilustríssima polícia, conseguiu inverter o jogo e chamar mais a atenção que o próprio Mano Brown. Na quinta ou quarta música do show, lá pelas 5 da manhã – a galera alvoroçada com a lucidez das rimas dos Racionais – começou a pancadaria. Show lotado, todo mundo se esmagando para conseguir ver aquela figura persistente no palco, a galera cantando alucinada as músicas que falavam da dura realidade enfrentada pelas periferias, pelo Capão Redondo, Jardim Rosana, o Fundão. Era um troço foda para quem, como eu, nunca tinha assistido a um show dos Racionais.
Mano Brown sobe no palco e de cara fala algo sobre as atitudes sinistras da polícia em relação à periferia. A galera concorda em peso porque quem estava ali não era um monte de playboyzinhos universitários como no show anterior do Nação Zumbi, e para quem a polícia, em maior escala tenta ser eficiente. Quem estava ali, salvo algumas exceções, eram os manos, as minas das periferias que convivem com essa polícia incoerente, repressiva, vingativa e corrupta que nasce para cuidar de bens, patrimônios e não de vidas humanas. Alias, pelo jeito que nos trataram, nem éramos gente mesmo, éramos uma massa sem rosto, sem vida, sem alma. Éramos algo próximo de uma boiada que se amontoava para fugir dos “tiros de borracha” das pistolas policias.
Essa polícia que no dia seguinte do show disse à imprensa que estava ali para conter as “guerras”, as arruaças dos possíveis baderneiros do show. Porém, quem eram esses arruaceiros, maloqueiros, ladrões, etc? Eram pobres, subordinados, pretos, marginalizados em geral. Pessoas que na sociedade não possuem valor, que causam ojeriza aos cidadãos de “bens”, aos privilegiados que em muitos casos só se aproximam dessa massa periférica porque essa é seu funcionário, seu subordinado, os lavadores de seus banheiros em shopping center, que são isentos de qualquer subjetividade. Pobre nem nome tem, tem cargo, e de fato, cargos de subordinação aos cidadãos de “bens”.
Quem já prestou atenção nas letras dos Racionais pôde notar que as letras são de fato violentas, que tem tiro, cocaína, crack e morte, porém, isso é parte do retrato de uma realidade cruel que não é exposta na mídia com teor de verdade. Essas letras não são violentas à toa, elas são violentas porque a violência está no cotidiano dessas pessoas que se identificam com as letras e clamam por justiça. O que incomoda os policias e as classes médias é que as letras dos Racionais trazem uma realidade que quase ninguém quer ver. Elas plantam em cada um daqueles atentos fãs a consciência da situação em que vivem. Claro que a classe média, os universitários que estavam no show da Nação Zumbi não querem ouvir aquelas letras violentas, não faz o menor sentido aquilo tudo, porque não vivem essa realidade de assassinatos cometidos por policiais, onde os corpos amanhecem nas ruas e a única explicação possível encontrada pelos moradores dessas regiões periféricas é de que “os PMs mataram mais um”.
A classe média tem a polícia atendendo seus condomínios de luxo e sua ocorrência policial de furto de automóvel. Para eles sim a polícia pode parecer um pouquinho mais eficiente, porém pra pobre e favelado, aí a coisa começa a complicar. Quem são esses policias para os marginalizados? São exatamente o contrario do que são para os cidadãos que possuem os “bens” e as propriedades. Os policias para os pobres são os agentes das mortes de quem se ama, violam a dignidade de crianças e adolescentes que crescem revoltados com tais atos. Situações essas recorrentes nas periferias e que não apresentam punição aos culpados. São os famosos crimes cometidos por “ninguém”, ou seja, crimes que não causam a menor comoção nacional.
Naquela multidão que foi amassada e na qual eu também estava, me doía essa cegueira coletiva da classe média, esses polícias que em comunhão com a mídia transformam seres humanos ricos em peculiaridades, em bandidos baderneiros. Existe uma guerra civil camuflada por trás desse discurso de paz para todos. Paz pra quem? Pra classe média que está sendo achatada e mesmo assim se endivida para tentar manter uma posição que não possui mais? Somos parte da mesma crueldade de tal sistema econômico voraz que avassala qualquer possibilidade de paz. No caso das periferias se toma consciência mais rapidamente que o restante da população, principalmente por ser ela que sofre os danos mais diretos dessa extrema desigualdade social dos novos tempos.
Os Racionais e outros grupos de rap nascem para denunciar essas porcarias todas que a desigualdade social produz. Eles possuem um novo discurso que desconstrói crenças institucionalizadas por grande parte da população e restauram a dignidade desse povo maltratado e humilhado cotidianamente.
Anna Carolina Botelho Takeda é estudante, professora de literatura e membro do Fórum de Hip Hop e Poder Público. annacbt@hotmail.com
Escrito por Glória às 02h38
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14 mortos. Comandante e governador comemoram
O comandante da Polícia Militar do Rio de Janeiro, coronel Ubiratan Ângelo, afirmou neste sábado que a Secretaria de Segurança do Rio está traçando a estratégia para a nova fase da ocupação do conjunto de favelas do Complexo do Alemão, na zona norte da cidade. Ângelo também elogiou a atuação dos policiais na ação, que já dura 11 dias e deixou pelo menos 14 pessoas mortas e 40 feridos. Na manhã deste sábado, Ângelo esteve no batalhão de Olaria, onde trabalham alguns dos PMs que participam das operações. O coronel foi cumprimentá-los pelo trabalho. "Vim ao batalhão conversar com a tropa, bater um papo, trazer meu carinho e o meu agradecimento aos policiais militares que estão na operação dia e noite".
O trio covarde e fascista: governador, imprensa e sociedade omissa
Caberia à imprensa denunciar e protestar contra o extermínio oficial nas favelas do Rio. E um verdadeiro acinte este álibi de confronto entre policiais e traficantes. Quer dizer que traficante tem estrela na testa? Eles atiram com o aval do governador e da sociedade, que quer mais que a "periferia se exploda", como na música Classe Média, do músico Max Gonzaga, na qual ele diz tudo:
Sou classe média. Papagaio de todo telejornal Eu acredito Na imparcialidade da revista semanal
Sou classe média, compro roupa e gasolina no cartão Odeio “coletivos” e vou de carro que comprei a prestação
Só pago impostos, Estou sempre no limite do meu cheque especial Eu viajo pouco, no máximo um Pacote CVC tri-anual
Mas eu “tô nem aí” Se o traficante é quem manda na favela Eu não “tô nem aqui” Se morre gente ou tem enchente em Itaquera Eu quero é que se exploda a periferia toda
Mas fico indignado com o Estado Quando sou incomodado Pelo pedinte esfomeado Que me estende a mão
O pára-brisa ensaboado É camelô, biju com bala E as peripécias do artista Malabarista do farol
Mas se o assalto é em “Moema” O assassinato é no “Jardins” E a filha do executivo É estuprada até o fim
Aí a mídia manifesta A sua opinião regressa De implantar pena de morte Ou reduzir a idade penal
E eu que sou bem informado Concordo e faço passeata Enquanto aumento a audiência E a tiragem do jornal
Porque eu não “tô nem aí” Se o traficante é quem manda na favela Eu não “tô nem aqui” Se morre gente ou tem enchente em Itaquera Eu quero é que se exploda a periferia toda
Toda tragédia só me importa Quando bate em minha porta Porque é mais fácil condenar Quem já cumpre pena de vida
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A História se repete
As invasões e assassinatos nas favelas e periferias do Rio de janeiro são a repetição do massacre da guerra de Canudos, na Bahia, no século XIX. Leia no http://gloria.reis.blog.uol.com.br/
Escrito por Glória às 03h48
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